
Nalgum dia, talvez sem querer, talvez por muito querer, você se pega folheando algum livro seguindo o ziguezague de determinadas palavras que o faz parar. Repete o mesmo caminho várias vezes. Um palavrão qualquer coroa o momento em que algo parece ter se (des)engrenado dentro de ti. O assombro de não ter feito sentido algum exatamente por ter feito sentido demais causa borbulhas na boca do estômago e o saltar de veias na testa, alguns chegam até a perder o senso do chão e da verticalidade obrigada pela gravidade. Hesitante, pode preferir jamais ter encontrado semelhantes pensamentos que se infiltram em meio a seu inventário de tarefas cotidianas e surgem sem serem invocadas, neste caso umas boas doses de entretenimento mais do mesmo pode servir para desinfetar as idéias. Ou talvez você se torne um arauto das boas novas distribuindo a seus íntimos suas novas percepções e uma alquimia interna se realiza por meio da coagulação daquilo com seu ser: tornam-se inseparáveis, indistinguíveis.
Alguns terrivelmente incomodados ao sentirem uma sensibilidade possivelmente esquecida tornam-se temerosos diante de sua própria instabilidade e iniciam uma jornada intelectual com a meta de destilar o agente desestabilizador e reificá-lo. Montam nas costas de gigantes do pensamento em busca de seus conceitos taxativos e neutralizadores. Com o esquadro e o compasso em mãos iniciam sua tarefa de sedimentar ao redor do agora objeto um invólucro intelectual, imobilizando-o em meio a uma teia de citações e paráfrases deixando-o esquálido e macilento no alto de alguma torre sem portas ou janelas.
Restabelecidos seguem suas vidas no ramo da alvenaria enquanto esperam pela própria morte em meio a simpósios, artigos, aulas e bancas. Outros abandonam a carreira acadêmica e seguem rumos quaisquer que a vida traz. No entanto intempéries podem vir a acometer tanto uns como outros talvez mais cedo, talvez mais tarde e quem sabe nunca. Um dia você pode ser assaltado por uma situação qualquer na qual se vê confrontado com o grito afiado de um dos muitos encarcerados, conexões escondidas (de ti para si mesmo) pululam na mente desmontando todo o quadro explicativo minuciosamente construído, uma torrente de sensações subterrâneas emerge pelo corpo, o sangue quente corre livre no fluxo de veias antes emboloradas. Uma besta corre livre dentro de ti, a queda é inevitável e as cicatrizes ensinam tanto quanto velhos sábios para os que estão dispostos a ouvir.
as vezes um livro é só um livro.
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