Essa é a incrível história da menina em preto e branco.
Por um longo tempo essa menina viu todas as cores, aromas, texturas, sentimentos, sentidos que seu mundo poderia oferecer, mas, em um triste dia tudo isso simplesmente desapareceu e só restou um vazio preto e branco. E o porquê disso não se é conhecido.
Ela passou a ser então mais uma menina cinza, e seu mundo, um mundo preto e branco, mas disso ela também não sabia, coisas assim são aquelas do tipo que apenas acontecem e todos se adaptam naturalmente... E ela esquecera tudo de bonito que tinha fora de seu novo e triste mundo, inclusive a felicidade que se pode extrair de coisas pequenas, como olhar o céu depois da chuva ou receber um simples abraço de quem se gosta...
E costumavam dizer dela... Mas não era ela dizendo por si própria... Diziam dela como se ela fosse apenas uma imagem refletida num espelho, algo como quando você se olha e sorri, mesmo tendo o coração amargurado o espelho só mostra o sorriso, e mesmo que do outro lado o “outro você” também esteja amargurado, você nunca irá saber pois aquele reflexo não é você de verdade!
Costumavam “achar” por ela. Uns achavam o que deveria ser dito, outros o que deveria ser feito, uns ainda insistiam no que ela deveria sentir ou como deveria se comportar e assim enfeitavam-na de laços, fitas e cores que, pra ela, eram apenas pretos e brancos... E de tanto todos acharem assim, ela achou que poderia se achar e ainda achou que achando isso poderia ser mais feliz e assim o fez: se procurou nas cores que não podia ver, nos aromas que não podia sentir, nos lugares onde não cabia, nas palavras que não entendia, nos sentidos que não faziam sentido...
E então ela começou de novo a amar seu mundo, sem saber o que era o vermelho, uma flor, um arco-íris ou mesmo um simples e encantador sorriso carregado de sentimento...
Mas ela jamais poderia ser o seu reflexo...
No fluxo natural das coisas essa menina virou mais uma mulher desbotada...
Um dia ela estava andando pela rua, que ela já se acostumara a ver cheia de fuligem cinza, pássaros cinza, carros cinza e opa! Que era aquilo?
No meio daquele degradê mórbido entre o preto e o branco, algo incrível se mostrara... Ela quase morreu... Ela gritava, pulava, apontava, puxava as pessoas mas ninguém entendia... Chegaram a chamar a polícia, logo depois o hospício... Mas por quê? Aquelas outras pessoas também não podiam ver a mágica que a pouco assassinara a rotina e a mesmice daquele mundo tão previsível? Seria impossível algo tão incrível passar despercebido... Será que todas aquelas pessoas, se olhadas de dentro delas mesmas e não como reflexos cinza que a agora mulher desbotada enxergava, também viam um mundo cinza e falavam de cores, sentidos, prazeres sem deles experimentarem? Será que estavam todos fingindo ver algo que, no final das contas, num determinado momento da vida, todos também haviam perdido?
Aquilo que ela há pouco experimentara, soava agora em sua memória como um sonho bom que trouxera de volta não apenas um mundo há muito esquecido. Agora existiam duas dimensões e um choque entre elas, mas seu mundo continuava preto e branco, com variações quase infinitas de tons de cinza...
Ela olhou pra trás, nada diferente ali estava... Então ela, abatida, tentou olhar pra frente, como que querendo seguir e de novo querendo fingir não haver visto nada apaixonante há pouco... Fechou seus olhos, tentou esquecer e mergulhar em seu mar preto e branco outra vez. Não podia... Uma dimensão destruiu a outra e nesse choque não tinha mais como ver beleza ou tirar felicidade de algo tão artificial e pequeno como era seu mundo desbotado... Só havia o cinza ao seu redor...
Desesperada com essa situação ela mais uma vez correu, gritou, se jogou no chão, chorou... Pela primeira vez depois de muito tempo sentiu medo mas sentiu também um calor que começava por dentro e infestava seu corpo... Sentiu-se em casa... Sentiu o vento, a textura do chão, o calor que a envolvia... Se sentiu pensar... Entregou-se àquilo sem saber bem o que era, o que aconteceria e com muito, muito medo... Mesmo assim se deixou levar, abraçou o tempo e beijou o instante como há tempos não fazia e então algo mais mágico ainda aconteceu... Esse tempo que ela abraçara havia simplesmente parado e ela não podia mais deixar de beijar o instante... Ela abriu os olhos e viu cor... Sentiu o cheiro das flores... Amou coisas simples, lindas e que na maioria das vezes passam tão desapercebidas porque a maioria das pessoas não dá a elas o valor devido... Mas o medo continuava pois ela não podia negar o mundo de aparência cinza que por tanto tempo fez parte dela, ela não podia negar que essa dicotomia, esse vazio faziam parte dela...
O que essa agora mais uma vez menina não sabia é que ela talvez não tivesse visto beleza hoje em coisas simples, se ela não tivesse experimentado como é não ter isso, do lado de dentro, não somente como uma expressão que se olha no espelho...
E então quando ela se permitiu olhar no espelho, se viu com todas as cores possíveis e impossíveis até! Sorriu! Talvez dos dois lados! Me disse uma vez que nunca poderia ter pensado ser tão feliz apenas beijando por um instante o desconhecido, num instante do tempo, mesmo sem fazer sentido agora e mesmo não havendo volta... Daí quando eu parei pra pensar sobre isso: o tempo, a cor, o abraço, o beijo colocados assim, dessa forma, não significavam as palavras que agora são escritas, é como se uma coisa também não pertencesse a outra também... E como eu queria que houvessem signos para que acontecimentos assim pudessem ser eternizados!!!!
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