sábado, 3 de julho de 2010
D'aquela velha dicotomia...
Eram quatro e vinte e cinco da madrugada de outro dia qualquer e tudo que ele fazia era correr pelas vielas e bocadas escuras a procura de um vagabundo qualquer que pudesse entregá-lo um ou dois papéis. Mas justamente naquele dia não havia mais nenhum fantasma e nem mesmo um rato sujo lhe cruzou o caminho para oferecer alguns segundos de pseudo-companhia. Uns tempos depois, já doente, quase sem forças para falar, esse cara me disse que se lembrava bem daquele dia. Poderia ter sido só mais um, pois aquela correria na madrugada era rotina, mas algo aconteceu ali e não tinha como se voltar atrás. Não... Não estamos falando de sonhos, ou de milagres... Seus sonhos há tempos ele havia trocado num puteiro por algumas horas de diversão com umas vagabundas sem rosto. E milagres... Há! Ele já se dizia suficientemente adulto para acreditar em papai-noel! Seus planos viraram alguns meses de cachaça e sinuca, eram bons como mercadoria de troca – naquela época pagavam bem por bons planos de vida. Já suas esperanças ele perdeu quase todas em duas ou três mãos de pocker que jogou com um moleque chamado destino – é... No jogo ele nunca tinha tido sorte mesmo. Mas voltando àquele fatídico dia, realmente existem coisas que acontecem e são inusitadas mesmo que se esteja esperando que elas aconteçam exatamente como se planejou. E foi mais ou menos isso. Ele já esperava encontrar ninguém... Até desejava isso. Tomou tanto na cara que escolheu não ter mais nenhuma mão que pudesse lhe bater por perto. E correu. Correu tanto que parecia por horas, voar... Correu da vida... Correu de tudo que colocasse pelo menos um de seus pés no chão. Era pouco o que ele buscava e tinha como pagar. Mas as ruas não estavam para negócios, talvez isso fosse uma das conseqüências do blefe que fez. Não se pode apostar tudo quando se tem apenas uma dupla de damas nas mãos. E quando teve de parar, se deu conta que esquecera algo. Logo tratou de bater em seus bolsos e revirar-se, mas não encontrou nada além dos trocados que conseguira extorquindo uma velha gagá que acreditava que qualquer vagabundo era um de seus filhos mortos há tempos. Se havia perdido sonhos e planos, quem dirá os escrúpulos! Recobrou o fôlego e continuou a correr... Dentro dele um destino que joga com o destino. Quem o via, apenas outro desajustado. Correu até que escorregou em algo viscoso. Caiu. Quase rachou a cabeça, com certeza revirou os miolos! Entre seus dedos estava a coisa mole e molhada em que ele escorregara. Parecia que pulsava. Parecia ainda viva, porém toda ensangüentada. Que porra seria essa? Levantou com aquele troço na mão. Olhou, meio sem acreditar, meio que tentando lembrar se havia usado algo alucinógeno naquele dia, mas não. Era um coração pulsando, humano, feio, venoso, sangrando, nada romântico, nada inspirador, meio que amassado pelo impacto, mas ainda pulsando. Sentou. Raciocinou. Não se permitiu pensar em algum tipo de assassinato ou sadismo ou loucura dessas que se vê nos noticiários sensacionalistas – aquela merda ainda batia – e batia forte! Que tipo de animal perderia seu próprio coração? Porque havia sido ele a achar? O resto do mundo perdeu a graça. Só havia ele e aquele coração. Sem mais problemas, nem destino, nem nada... Talvez a sarjeta que delimitava o espaço e colocava os pés no chão e a cabeça mais perto do céu. Coração nas mãos. A resposta veio sem mais delongas, um insight. Botou a mão no peito. Seus pés e sua cabeça estavam onde deveriam: havia a linha racional que a sarjeta traçara – em cima, em baixo, independente se em cima forem os pés e em baixo a cabeça... Mas seu coração... Ele havia acabado de escorregar nele... Pior, mais nonsense... Seu coração estava em suas mãos, não em seu peito, batendo. Batia. Porra! Batia. Por entre os dedos ensangüentados. Batia... Como poderia estar ainda vivo? Sem coração? Como ele bombeava seu sangue sem estar em seu corpo? E porque caralho ele batia em suas mãos? Seu efeito placebo começara a passar. A realidade objetiva começara a se distorcer... Você fica doente quando se sente doente. No caso, ele se sentiu o mais doente, pois no mundo, ele se dera conta de que existia apenas ele e seu coração offboard e esse coração havia sido atropelado por tempo demais. A doença tomou conta. Não houve medicina capaz de reimplantar o coração – eles eram incompatíveis. Ele adoeceu. Seu coração não parou de bater entre seus dedos ensangüentados. E a vida passou a fazer sentido de outro jeito.
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