terça-feira, 29 de junho de 2010

Quero te ouvir mais, sinto que essencializo você.

quem é gruber?


Hermínia, pequena vaca: aquela noite quando eu te toquei bem de leve lá no meio das pernas já estavas molhada e eu achei estranho. estranho porque cinco minutos atrás, naquela noite, tu estavas no canto da sala com o copo de uísque na mão, naquele canto, aliás canto aqui da sala onde temos o Gruber, o desenho da menina famélica (sempre detestei este desenho, detesto fome pobreza riscos negros num quadro, detesto Francis Bacon também, aqueles horrores que os pedantes gostam, se vissem alguém desfocado assim mijariam nas calças, mas ficam com ós ais, belíssimo, não? e o horror ali, todo desfazido e nauseabundo) então nesse canto da sala, ali ali, até vou me levantar para ver novamente esse maldito canto, levantei-me, já voltei, estavas ali com a coxa encostada em Alessandro, eu vi, eu vi tudo Hermínia, e foi neste instante, neste canto, que te molhaste, o rapazola aos vinte e poucos (quantos anos afinal tem esse puto?) e tu Hermínia aos cinqüenta...então te puxei pelo braço, quase na altura do ombro ali onde estás bem flácida, cretina, tu pensas que esse bobalhão te ama?" (Hilst, p.25/26, 2006)



Francis Gruber


Francis Bacon



Ao reler dessa vez, o pequeno trecho me chamou a atenção... essa foi a primeira vez que essas linhas (insólitas?) me despertaram curiosidade... quem é afinal Gruber? perguntei pro google, mas não senti firmeza na resposta... será que o Gruber existe? será Francis Gruber o mesmo Gruber a que Hida-Vittorio se refere? Francis Bacon, o google sabia, acreditei nele...



pensei em uma possível chave pra desvendar o mistério de Gruber... Pensei que Hermínia molhada poderia ser uma possível chave... se é ou não, eu não sei... mas reescrevi a palavra gruber no google imagens e a primeira que apareceu foi a menina do quadro... ela não é famélica (ou é?) mas deve estar molhada... assim como a moça do quadro do outro Francis que não é Gruber... sensualmente disforme ela, não? ou melhor sexualmente disforme... muito provavelmente o Bacon deve ter comido... ela é Muriel Becher... eu nunca ouvi falar, mas o quadro é o retrato dela...


A questão afinal não é a vida sexual de Becher e Bacon, mas a existência ou não do tal do Gruber...


A senhora-senhor Hilda-Vittorio como boa-bom filha -filho - da - puta que é ou se faz de, não dá pistas da existência ou não do tal do Gruber...custava revelar um primeiro nome? (seria esse primeiro nome Francis?)
Mas a descrição que é feita na carta de Vittorio da figura de Gruber me lembra os flagelados de Portinari, (talvez menos coloridos) e esses pelo menos num nível superficial de análise (o meu) tem pouco a ver com a moça de Francis Gruber...



Tá, pelo menos por enquanto não cheguei a nenhuma conclusão sobre a existência ou não existência, e menos ainda a possível identidade do tal Gruber e de sua menina famélica do canto da sala...

mas percebo que a pelo menos o outro Francis dialoga bastante com a cena de Hermínia e Alessandro... tá aqui a resposta que o google me deu e eu acreditei, porque o google é bonito, bom menino e não mente:

http://blogdofavre.ig.com.br/tag/francis-bacon/

Se tudo isso é relevante, sinceramente não sei... nem tento mais saber, acho... como saber o que é relevante nessa altura dos acontecimentos?

terça-feira, 22 de junho de 2010

Meu casto filósofo... *

Em determinado momento, a própria filosofia do futuro de Friedrich Nietzsche deixa entrever que sua potência provém de energia, ou melhor, vontade sexual acumulada; acaba, portanto, extravasando numa arenga indignada – ainda que cínica – e enfastiada dos espetáculos ludibriosos de sua cultura. Esse alemão aperreado, que louva a solidão pelo treinamento recrudescedor que essa dá ao espírito, ele mesmo sabe o quanto o eterno-masculino é afeito à ilusão; o quanto é necessitado de imagens substanciais que preencham todo o vácuo do incompreensível. O que Deus e a ciência sempre fizeram pelo homem? Talvez a verdade não tenha uma forma, mas um movimento que envolve, distrai, graceja e, acima de tudo, se esquiva sempre do rufião ocidental de que falo. Por que não nos entregamos de vez a esse seu poder? Por que não tentamos dar mais cor à nossa existência misturando as múltiplas matizes dessa vibração constante? Não parece ser esta também a sugestão de Nietzsche? Mas ao considerar a feminilidade, a castidade involuntária do filósofo sai, descuidada, de seu esconderijo. A mulher, nos seus augúrios para uma nova espiritualidade, é ferreteada por seus atributos idênticos à verdade. Ora, foi tu mesmo que disse, alemão masturbador, que filósofos pouco entendem de verdade, justamente por ela ser como a mulher. E filósofos pedantes pouco sabem o que é uma mulher. Mas você chegou perto. Talvez tenha imaginado bem a natureza feminina, mas ficou ofendido e irritadiço quando ela não se impressionou por sua genialidade; quando ela não cedeu apenas ao seu falatório que apostava na sinceridade. Ouça agora: por quê não levar-se pela dança da realidade, assim como pela dança do feminino? Essa dança – valendo-me de suas palavras – selvagem, encantadora, estranha, mais doce e mais cheia de vida. Você sabe disso. Mas por quê, quando confrontado com a doçura, selvageria, encantamento e jovialidade feminina, você sentencia o cativeiro? Ah, talvez tenha percebido que não pode “vencer” somente com sua magistral filosofia? Então tranquem-na. Façam-na servir-nos. No fim, não era isso que vínhamos fazendo até agora – e que você parecia condenar –, acorrentando a verdade aos conceitos, proibindo-na de sua beleza infinitamente múltipla em favor de nossa ânsia por fundamentação? Toda a força senhoril que você quis imprimir a sua filosofia não passava disso, castidade involuntária. Indignou-se com o fato do homem vacilar pela ilusão da verdade em si e pela ilusão feminina: ao primeiro caso você recomenda a libertação, ao segundo a clausura. De fato, pela moral do seu filosofar, sabemos qual a hierarquia de seus impulsos.

* Tratam-se, essas vozes, de ecos que persistiam em me aborrecer enquanto lia Além do bem e do mal.

Gustavo