ALCIR PÉCORA / JOÃO ADOLFO HANSEN
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também" (Luís Bruma).
Enquanto deus diminui, sujeitinho metido no céu de um buraco qualquer do corpo, o gozo aumenta na língua (a Portuguesa). Cães fila ladram do lado de lá, vira-latas latem do lado de cá. Na briga que HH encena contra a obscenidade geral, em Estar sendo, ter sido, o sacrilégio é histriônico, pois não há profanação possível num mundo em que o único sagrado é o troca-troca mercantil. Para que matar deus, se nunca existiu e, morto, só insiste como fantasma, como dizia o outro, porque ainda se acredita na unidade do sexo e da gramática?
HH ri de deus contra o Deus metáfora da Regra. O sujeitinho é paranóico, tem um olho-terror tatuado nas criaturas como cu-caverna das Idéias Essenciais. É dali que tudo é visto e se obra como consciência e limitação. Recusando hipostasias como verdade sublime no rebaixamento ostensivo que evidencia a farsa, a canastrice de HH também recusa a tentação de heroísmo do próprio gesto, amplificando o baixo na sua incontinência verbivocossexual. Enquanto se dissolve, seu riso dissolve o lugar-comum autoritário e a referência a deus aparece ao leitor como a ficção de uma busca impossível. A desmontagem obscena do sórdido lirismo cotidiano, que afeta o sublime, ainda tenta resistir contra o mediano, o bem-pensante, o aparelho, o policial, o seguro de vida já velha ao nascer. Via negativa da ficção de atingir -- o quê? -- o bicho-ninguém, o ganso estropiado, o jeitão da lagartixa, o jeitinho sem frescura de um vira-lata, o nada e o nenhum. Na literatura de HH, o animal e a loucura figuram a utopia de uma vida fora da Lei.
Sua arte repõe a essência do horror, sem catarse e sublimação: a vida brasileira é mesmo obscena e, quanto a Zürich, a limpeza não existe sem a muita merda de cachorro. Joyce, caolho, não deixou de pisá-la. Tragicomédia: nesse mundinho, o baixo que se deseja só baixo é consciência intragável da morte, termo, limite, origem do que se diz: Vittorio sofre, tarado e intelectual, a dor da morte e o horror de Deus; Matias, tarado, planta picas e pitas. Bestalhão o Júnior, um nada. Hermínia, obsessiva, tarada aos 50. E Alessandro, belíssimo e tarado. Mas, limite, e a dentadura?
Dramatizando o vir-a-ser do Alto, ao mesmo tempo HH não quer vê-lo, pois sabe que seria apenas outra ilusão da idiotia generalizada como bruta democracia. O deus que há na praça é esse aí, mentiroso, maneiroso, canelinhas finas, espírito de porco pairando com exclusividade sobre o pântano, síndico do condomínio da morte.
No mundo obsceno, repor o baixo é um pouco como reencontrar o lugar onde o mito da liberdade antes se insinuava. Mas ainda é o mito, não a substância livre, indeterminada. Assim, a consciência utópica, que antes vinha do futuro, agora decai no pretérito, resíduo do gesto baixo: é tendencialmente a consciência da destruição das formas cínicas do presente, mas não tem vez. O hemisfério da destruição reconstrói, como sombra ou névoa amarelo-laranja, não como sol, o rigoroso da consciência.
A perseguição desta faz proliferar a linguagem como falta de ser; ao mesmo tempo, como desejo do fim de Deus. A demanda do nome é demanda do incondicionado: as frases de HH são indícios de acumulação de sujeitos-de-enunciados já lidos, que mantêm a semelhança entre si, como objetos longínquos empapados de uma memória que apodrece; por isso, mais sentidamente, são estranhos, mutilados, vomitivos: sua unidade é aporia e seus resíduos gravados na escrita dão a justa medida de uma arte que só se eleva afundando-se no lixo.
A magnífica HH mais uma vez simula, pois, vozes desejantes de liberação da morte e da vida porca. Como as do gagá Vittorio, apenas anunciam tempo e morte. Aqui, a linguagem que maltrata a carne triste é gozosa e vai do deítico para a amplificatio: aqui, ó, cresce aparece e mostra, o pau. Enquanto o nome do Pai é achincalhado, multiplicam-se as suas imagens: paus murchos brotam, beiçolas yuppies chupam ameaçantes, regos criam dentes, cuzinhos vêm a ser cuzaços, inúteis todos, estéreis de morte, crescendo e multiplicando-se na fábrica sintática em grande algazarra da linguona portuguesa das partes sem pudendum. As imagens misturam-se com diluentes à base de dor, álcool, endotoxinas e muita literatura. As imagens de dois momentos brevíssimos cruzam-se num relance, sugerindo coincidirem na impermanência. O equívoco e a congruência monstruosa são contradefinições cômicas e agudíssimas que produzem o estranhamento contínuo das coisas. Uma galinha ruiva dentro de um cubo de gelo. Deus? uma superfície de gelo ancorada no riso.
A literatura de HH, que no Brasil repõe radicais de Clarice Lispector e Rosa, é pródiga no ensinar desconhecimento, o verdadeiro oposto da ignorância. A obscena Senhora D já rezava pelo Livro de Vittorio: "Livrai-me, Senhor, dos abestados e dos atoleimados". É óbvio, porém, que nada vence a morte e suas formas cotidianas de estupidez. Assim, a consciência é o inferno, mas também, a única poesia possível.
Nela, há um sistema completo, verdadeiro método de estudar e fingir a inconsciência: o álcool, exercício cotidiano de desregramento que faz beber como um macaco raivoso, produz a petrificação que paralisa o tempo e adia a morte numa imagem de desprezo e ironia: delírio trêmulo de não-ser, bengaladas no ar! O sexo, feroz escavação do nada na imagem fingida do outro, funde-se na fala como sexo falante. Sem hedonismo, órgão escarninho da utopia da ausência de Regra, o sexo explora os buracos também do sentido, gozo insípido do significante na busca tonta do gozo máximo do insignificante.
A literatura, essa vaca, é o terceiro vértice deste triângulo. A obscenidade só tem existência num campo de normas e Vittorio pede à rábula ilustrada que se masturbe e ao mesmo tempo finja que lê. Naturalmente, ela lerá o Código Penal. Se a Lei é a Letra, a pena máxima é o castigo mais extremo e o crime, só ocasião da graça. Mas graça não há. Aqui, o abuso obsceno da escrita inverte a escritura do sexo e as perversões transgridem a sexualidade da letra. Vieira sabido de cor, letra gozosa, o manuscrito no corpo. Lei.
Resulta que as penetrações de HH são literalmente utópicas: em vez de cruzar e fincar os corpos, desterritorializam-nos. Os alfabetos da morte se soletram nas manchas da pele, flores do sepulcro, e o fracasso é geral. Enquanto deus desaparece, a única coisa que realmente importa é a dita. Apenas do ponto de vista nenhum do seu nada, do nada além do pânico da anã visguenta, a liberdade é livre e porcaria é harmonia.
Doutores, também quisemos diagnosticar sobre os escritos das personagens-pacientes, desfiados no precipício da hora da morte: mais um caso de teologia negativa, de ascese inversa, de noche oscura, de apóphasis, de delectatio morosa, de muero porque no muero, de não sou eu mas é ele que vive em mim, de adynaton e de petrarquismo às avessas, blá-blá-blá?
Tudo isso, sim, mas nada, agora que deus aumentou tanto que já nem com invertida luneta aristotélica e arte de engenho se alcança ver a ametista utópica incrustada em seu cu de ouro puríssimo.
Revista da USP. São Paulo (36): 140-143, 11/02/1997-98
ALCIR PÉCORA é professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e autor de Teatro do Sacramento (Edusp / Edunicamp).
JOÃO ADOLFO HANSEN é professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFCLH-USP e autor de A sátira e o engenho (Companhia das Letras).
http://www.nankin.com.br/imprensa/frm_imprensa_geral.htm