quinta-feira, 29 de julho de 2010



O (Re)encantamento da ciência... A Matemática abstrata, lógica, demasiado humana e incrivelmente bela:!
Abrindo os olhos
Fora do infinito
Perfume de flor!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Tu, minha anta, HH


ALCIR PÉCORA / JOÃO ADOLFO HANSEN
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também" (Luís Bruma).

Enquanto deus diminui, sujeitinho metido no céu de um buraco qualquer do corpo, o gozo aumenta na língua (a Portuguesa). Cães fila ladram do lado de lá, vira-latas latem do lado de cá. Na briga que HH encena contra a obscenidade geral, em Estar sendo, ter sido, o sacrilégio é histriônico, pois não há profanação possível num mundo em que o único sagrado é o troca-troca mercantil. Para que matar deus, se nunca existiu e, morto, só insiste como fantasma, como dizia o outro, porque ainda se acredita na unidade do sexo e da gramática?
HH ri de deus contra o Deus metáfora da Regra. O sujeitinho é paranóico, tem um olho-terror tatuado nas criaturas como cu-caverna das Idéias Essenciais. É dali que tudo é visto e se obra como consciência e limitação. Recusando hipostasias como verdade sublime no rebaixamento ostensivo que evidencia a farsa, a canastrice de HH também recusa a tentação de heroísmo do próprio gesto, amplificando o baixo na sua incontinência verbivocossexual. Enquanto se dissolve, seu riso dissolve o lugar-comum autoritário e a referência a deus aparece ao leitor como a ficção de uma busca impossível. A desmontagem obscena do sórdido lirismo cotidiano, que afeta o sublime, ainda tenta resistir contra o mediano, o bem-pensante, o aparelho, o policial, o seguro de vida já velha ao nascer. Via negativa da ficção de atingir -- o quê? -- o bicho-ninguém, o ganso estropiado, o jeitão da lagartixa, o jeitinho sem frescura de um vira-lata, o nada e o nenhum. Na literatura de HH, o animal e a loucura figuram a utopia de uma vida fora da Lei.
Sua arte repõe a essência do horror, sem catarse e sublimação: a vida brasileira é mesmo obscena e, quanto a Zürich, a limpeza não existe sem a muita merda de cachorro. Joyce, caolho, não deixou de pisá-la. Tragicomédia: nesse mundinho, o baixo que se deseja só baixo é consciência intragável da morte, termo, limite, origem do que se diz: Vittorio sofre, tarado e intelectual, a dor da morte e o horror de Deus; Matias, tarado, planta picas e pitas. Bestalhão o Júnior, um nada. Hermínia, obsessiva, tarada aos 50. E Alessandro, belíssimo e tarado. Mas, limite, e a dentadura?
Dramatizando o vir-a-ser do Alto, ao mesmo tempo HH não quer vê-lo, pois sabe que seria apenas outra ilusão da idiotia generalizada como bruta democracia. O deus que há na praça é esse aí, mentiroso, maneiroso, canelinhas finas, espírito de porco pairando com exclusividade sobre o pântano, síndico do condomínio da morte.
No mundo obsceno, repor o baixo é um pouco como reencontrar o lugar onde o mito da liberdade antes se insinuava. Mas ainda é o mito, não a substância livre, indeterminada. Assim, a consciência utópica, que antes vinha do futuro, agora decai no pretérito, resíduo do gesto baixo: é tendencialmente a consciência da destruição das formas cínicas do presente, mas não tem vez. O hemisfério da destruição reconstrói, como sombra ou névoa amarelo-laranja, não como sol, o rigoroso da consciência.
A perseguição desta faz proliferar a linguagem como falta de ser; ao mesmo tempo, como desejo do fim de Deus. A demanda do nome é demanda do incondicionado: as frases de HH são indícios de acumulação de sujeitos-de-enunciados já lidos, que mantêm a semelhança entre si, como objetos longínquos empapados de uma memória que apodrece; por isso, mais sentidamente, são estranhos, mutilados, vomitivos: sua unidade é aporia e seus resíduos gravados na escrita dão a justa medida de uma arte que só se eleva afundando-se no lixo.
A magnífica HH mais uma vez simula, pois, vozes desejantes de liberação da morte e da vida porca. Como as do gagá Vittorio, apenas anunciam tempo e morte. Aqui, a linguagem que maltrata a carne triste é gozosa e vai do deítico para a amplificatio: aqui, ó, cresce aparece e mostra, o pau. Enquanto o nome do Pai é achincalhado, multiplicam-se as suas imagens: paus murchos brotam, beiçolas yuppies chupam ameaçantes, regos criam dentes, cuzinhos vêm a ser cuzaços, inúteis todos, estéreis de morte, crescendo e multiplicando-se na fábrica sintática em grande algazarra da linguona portuguesa das partes sem pudendum. As imagens misturam-se com diluentes à base de dor, álcool, endotoxinas e muita literatura. As imagens de dois momentos brevíssimos cruzam-se num relance, sugerindo coincidirem na impermanência. O equívoco e a congruência monstruosa são contradefinições cômicas e agudíssimas que produzem o estranhamento contínuo das coisas. Uma galinha ruiva dentro de um cubo de gelo. Deus? uma superfície de gelo ancorada no riso.
A literatura de HH, que no Brasil repõe radicais de Clarice Lispector e Rosa, é pródiga no ensinar desconhecimento, o verdadeiro oposto da ignorância. A obscena Senhora D já rezava pelo Livro de Vittorio: "Livrai-me, Senhor, dos abestados e dos atoleimados". É óbvio, porém, que nada vence a morte e suas formas cotidianas de estupidez. Assim, a consciência é o inferno, mas também, a única poesia possível.
Nela, há um sistema completo, verdadeiro método de estudar e fingir a inconsciência: o álcool, exercício cotidiano de desregramento que faz beber como um macaco raivoso, produz a petrificação que paralisa o tempo e adia a morte numa imagem de desprezo e ironia: delírio trêmulo de não-ser, bengaladas no ar! O sexo, feroz escavação do nada na imagem fingida do outro, funde-se na fala como sexo falante. Sem hedonismo, órgão escarninho da utopia da ausência de Regra, o sexo explora os buracos também do sentido, gozo insípido do significante na busca tonta do gozo máximo do insignificante.
A literatura, essa vaca, é o terceiro vértice deste triângulo. A obscenidade só tem existência num campo de normas e Vittorio pede à rábula ilustrada que se masturbe e ao mesmo tempo finja que lê. Naturalmente, ela lerá o Código Penal. Se a Lei é a Letra, a pena máxima é o castigo mais extremo e o crime, só ocasião da graça. Mas graça não há. Aqui, o abuso obsceno da escrita inverte a escritura do sexo e as perversões transgridem a sexualidade da letra. Vieira sabido de cor, letra gozosa, o manuscrito no corpo. Lei.
Resulta que as penetrações de HH são literalmente utópicas: em vez de cruzar e fincar os corpos, desterritorializam-nos. Os alfabetos da morte se soletram nas manchas da pele, flores do sepulcro, e o fracasso é geral. Enquanto deus desaparece, a única coisa que realmente importa é a dita. Apenas do ponto de vista nenhum do seu nada, do nada além do pânico da anã visguenta, a liberdade é livre e porcaria é harmonia.
Doutores, também quisemos diagnosticar sobre os escritos das personagens-pacientes, desfiados no precipício da hora da morte: mais um caso de teologia negativa, de ascese inversa, de noche oscura, de apóphasis, de delectatio morosa, de muero porque no muero, de não sou eu mas é ele que vive em mim, de adynaton e de petrarquismo às avessas, blá-blá-blá?
Tudo isso, sim, mas nada, agora que deus aumentou tanto que já nem com invertida luneta aristotélica e arte de engenho se alcança ver a ametista utópica incrustada em seu cu de ouro puríssimo.
Revista da USP. São Paulo (36): 140-143, 11/02/1997-98

ALCIR PÉCORA é professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e autor de Teatro do Sacramento (Edusp / Edunicamp).
JOÃO ADOLFO HANSEN é professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFCLH-USP e autor de A sátira e o engenho (Companhia das Letras).

http://www.nankin.com.br/imprensa/frm_imprensa_geral.htm

AZIA

domingo, 11 de julho de 2010

CONCEPSICOSE

Se estiver correta a vista, pode-se compreender o papel-hipótese de que a realidade desempenha a explicação de uma instância psíquica (sintomatologia psicótica) e igualmente a fronteira de "fim".
A alucinação seria um "fenômeno do mundo", que Freud aponta como o processo patológico corriqueiro nos paranóicos. A reversão: início das "tentativas de cura". Este quadro vai ser tentado por meio do processo psicótico do delírio, ou seja, do reinvestimento não-narcísico e consistente da demolição das representações da palavra. Revive-se vínculos objetais alucinatoriamente, permitindo o(des)investimento de representações, associações e produções.
Freud já propusera que o processual da fronteira para o normal da consciência depende da célebre reanimação alucinatória das imagens mnêmicas acústicas das palavras:
Hábitos saudáveis refletem no seu dia-a-dia - Bastam 3 acerolas!


*Nenhum dos personagens citados fazem referência a pessoas vivas ou mortas, caso ocorra não passa de mera coincidência acústica.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

primeiro no um

do campado esvaiu-se

era então o todo...

terça-feira, 6 de julho de 2010

de antes...

26.2.09

Mundo de Palavras

Um mundo feito de palavras, era assim que vivia.
Tinha acesso a todas as palavras do mundo, de todas as línguas.
Tinha todos os dicionários, e já tinha experimentado todas as construções possíveis com eles...
Definitivamente era a pessoa que mais conhecia as palavras no mundo, sabia as suas origens e os seus significados obscuros, todos os sentidos, desde o mais banal até o mais íntimo que uma palavra pode ter...
Vivia com as palavras desde o momento em que foi concebida...
Vivia num quadrado com palavras, as palavras tinham lhe contado tudo o que poderia ser dito sobre tudo... conhecia todos os lugares, todas as histórias, todas as pessoas... Sabia sobre a fome no mundo, sobre as artes, sobre sexo.. Conhecia filosofia, astronomia, culinária... Sabia de cantigas, de tribos isoladas, de hortas e galinhas...
Nunca saiu do quadrado...
Nunca sentiu a luz do sol, apesar de saber tudo sobre sol.
Nunca pisou na terra, apesar de saber tudo sobre a terra...
Nunca comeu um fruto, apesar de entender perfeitamente o processo de uma semente até gerar frutos.
E esse era seu mundo, com todas as palavras.

William Kentridge

a








para os gulosos:

http://cinemacultura.blogspot.com/2009/02/curtas-animadas-de-william-kentridge.html

domingo, 4 de julho de 2010

Chutador de cadáveres

Quero te ouvir mais, sinto que essencializo você.
Em pouco tempo você não poderá me mostrar o que te faz você,
conte-me uma de suas histórias,
vamos,
não quero vê-lo morto, essencializado e seco com algodões básicos no nariz...
Conte-me!
Se não, faço de teu póstumo pó a arte que você me nega experienciar.

sábado, 3 de julho de 2010

D'aquela velha dicotomia...

Eram quatro e vinte e cinco da madrugada de outro dia qualquer e tudo que ele fazia era correr pelas vielas e bocadas escuras a procura de um vagabundo qualquer que pudesse entregá-lo um ou dois papéis. Mas justamente naquele dia não havia mais nenhum fantasma e nem mesmo um rato sujo lhe cruzou o caminho para oferecer alguns segundos de pseudo-companhia. Uns tempos depois, já doente, quase sem forças para falar, esse cara me disse que se lembrava bem daquele dia. Poderia ter sido só mais um, pois aquela correria na madrugada era rotina, mas algo aconteceu ali e não tinha como se voltar atrás. Não... Não estamos falando de sonhos, ou de milagres... Seus sonhos há tempos ele havia trocado num puteiro por algumas horas de diversão com umas vagabundas sem rosto. E milagres... Há! Ele já se dizia suficientemente adulto para acreditar em papai-noel! Seus planos viraram alguns meses de cachaça e sinuca, eram bons como mercadoria de troca – naquela época pagavam bem por bons planos de vida. Já suas esperanças ele perdeu quase todas em duas ou três mãos de pocker que jogou com um moleque chamado destino – é... No jogo ele nunca tinha tido sorte mesmo. Mas voltando àquele fatídico dia, realmente existem coisas que acontecem e são inusitadas mesmo que se esteja esperando que elas aconteçam exatamente como se planejou. E foi mais ou menos isso. Ele já esperava encontrar ninguém... Até desejava isso. Tomou tanto na cara que escolheu não ter mais nenhuma mão que pudesse lhe bater por perto. E correu. Correu tanto que parecia por horas, voar... Correu da vida... Correu de tudo que colocasse pelo menos um de seus pés no chão. Era pouco o que ele buscava e tinha como pagar. Mas as ruas não estavam para negócios, talvez isso fosse uma das conseqüências do blefe que fez. Não se pode apostar tudo quando se tem apenas uma dupla de damas nas mãos. E quando teve de parar, se deu conta que esquecera algo. Logo tratou de bater em seus bolsos e revirar-se, mas não encontrou nada além dos trocados que conseguira extorquindo uma velha gagá que acreditava que qualquer vagabundo era um de seus filhos mortos há tempos. Se havia perdido sonhos e planos, quem dirá os escrúpulos! Recobrou o fôlego e continuou a correr... Dentro dele um destino que joga com o destino. Quem o via, apenas outro desajustado. Correu até que escorregou em algo viscoso. Caiu. Quase rachou a cabeça, com certeza revirou os miolos! Entre seus dedos estava a coisa mole e molhada em que ele escorregara. Parecia que pulsava. Parecia ainda viva, porém toda ensangüentada. Que porra seria essa? Levantou com aquele troço na mão. Olhou, meio sem acreditar, meio que tentando lembrar se havia usado algo alucinógeno naquele dia, mas não. Era um coração pulsando, humano, feio, venoso, sangrando, nada romântico, nada inspirador, meio que amassado pelo impacto, mas ainda pulsando. Sentou. Raciocinou. Não se permitiu pensar em algum tipo de assassinato ou sadismo ou loucura dessas que se vê nos noticiários sensacionalistas – aquela merda ainda batia – e batia forte! Que tipo de animal perderia seu próprio coração? Porque havia sido ele a achar? O resto do mundo perdeu a graça. Só havia ele e aquele coração. Sem mais problemas, nem destino, nem nada... Talvez a sarjeta que delimitava o espaço e colocava os pés no chão e a cabeça mais perto do céu. Coração nas mãos. A resposta veio sem mais delongas, um insight. Botou a mão no peito. Seus pés e sua cabeça estavam onde deveriam: havia a linha racional que a sarjeta traçara – em cima, em baixo, independente se em cima forem os pés e em baixo a cabeça... Mas seu coração... Ele havia acabado de escorregar nele... Pior, mais nonsense... Seu coração estava em suas mãos, não em seu peito, batendo. Batia. Porra! Batia. Por entre os dedos ensangüentados. Batia... Como poderia estar ainda vivo? Sem coração? Como ele bombeava seu sangue sem estar em seu corpo? E porque caralho ele batia em suas mãos? Seu efeito placebo começara a passar. A realidade objetiva começara a se distorcer... Você fica doente quando se sente doente. No caso, ele se sentiu o mais doente, pois no mundo, ele se dera conta de que existia apenas ele e seu coração offboard e esse coração havia sido atropelado por tempo demais. A doença tomou conta. Não houve medicina capaz de reimplantar o coração – eles eram incompatíveis. Ele adoeceu. Seu coração não parou de bater entre seus dedos ensangüentados. E a vida passou a fazer sentido de outro jeito.

Da prosa inocente nas metamorfoses Nietzscheanas

Essa é a incrível história da menina em preto e branco.
Por um longo tempo essa menina viu todas as cores, aromas, texturas, sentimentos, sentidos que seu mundo poderia oferecer, mas, em um triste dia tudo isso simplesmente desapareceu e só restou um vazio preto e branco. E o porquê disso não se é conhecido.
Ela passou a ser então mais uma menina cinza, e seu mundo, um mundo preto e branco, mas disso ela também não sabia, coisas assim são aquelas do tipo que apenas acontecem e todos se adaptam naturalmente... E ela esquecera tudo de bonito que tinha fora de seu novo e triste mundo, inclusive a felicidade que se pode extrair de coisas pequenas, como olhar o céu depois da chuva ou receber um simples abraço de quem se gosta...
E costumavam dizer dela... Mas não era ela dizendo por si própria... Diziam dela como se ela fosse apenas uma imagem refletida num espelho, algo como quando você se olha e sorri, mesmo tendo o coração amargurado o espelho só mostra o sorriso, e mesmo que do outro lado o “outro você” também esteja amargurado, você nunca irá saber pois aquele reflexo não é você de verdade!
Costumavam “achar” por ela. Uns achavam o que deveria ser dito, outros o que deveria ser feito, uns ainda insistiam no que ela deveria sentir ou como deveria se comportar e assim enfeitavam-na de laços, fitas e cores que, pra ela, eram apenas pretos e brancos... E de tanto todos acharem assim, ela achou que poderia se achar e ainda achou que achando isso poderia ser mais feliz e assim o fez: se procurou nas cores que não podia ver, nos aromas que não podia sentir, nos lugares onde não cabia, nas palavras que não entendia, nos sentidos que não faziam sentido...
E então ela começou de novo a amar seu mundo, sem saber o que era o vermelho, uma flor, um arco-íris ou mesmo um simples e encantador sorriso carregado de sentimento...
Mas ela jamais poderia ser o seu reflexo...
No fluxo natural das coisas essa menina virou mais uma mulher desbotada...
Um dia ela estava andando pela rua, que ela já se acostumara a ver cheia de fuligem cinza, pássaros cinza, carros cinza e opa! Que era aquilo?
No meio daquele degradê mórbido entre o preto e o branco, algo incrível se mostrara... Ela quase morreu... Ela gritava, pulava, apontava, puxava as pessoas mas ninguém entendia... Chegaram a chamar a polícia, logo depois o hospício... Mas por quê? Aquelas outras pessoas também não podiam ver a mágica que a pouco assassinara a rotina e a mesmice daquele mundo tão previsível? Seria impossível algo tão incrível passar despercebido... Será que todas aquelas pessoas, se olhadas de dentro delas mesmas e não como reflexos cinza que a agora mulher desbotada enxergava, também viam um mundo cinza e falavam de cores, sentidos, prazeres sem deles experimentarem? Será que estavam todos fingindo ver algo que, no final das contas, num determinado momento da vida, todos também haviam perdido?
Aquilo que ela há pouco experimentara, soava agora em sua memória como um sonho bom que trouxera de volta não apenas um mundo há muito esquecido. Agora existiam duas dimensões e um choque entre elas, mas seu mundo continuava preto e branco, com variações quase infinitas de tons de cinza...
Ela olhou pra trás, nada diferente ali estava... Então ela, abatida, tentou olhar pra frente, como que querendo seguir e de novo querendo fingir não haver visto nada apaixonante há pouco... Fechou seus olhos, tentou esquecer e mergulhar em seu mar preto e branco outra vez. Não podia... Uma dimensão destruiu a outra e nesse choque não tinha mais como ver beleza ou tirar felicidade de algo tão artificial e pequeno como era seu mundo desbotado... Só havia o cinza ao seu redor...
Desesperada com essa situação ela mais uma vez correu, gritou, se jogou no chão, chorou... Pela primeira vez depois de muito tempo sentiu medo mas sentiu também um calor que começava por dentro e infestava seu corpo... Sentiu-se em casa... Sentiu o vento, a textura do chão, o calor que a envolvia... Se sentiu pensar... Entregou-se àquilo sem saber bem o que era, o que aconteceria e com muito, muito medo... Mesmo assim se deixou levar, abraçou o tempo e beijou o instante como há tempos não fazia e então algo mais mágico ainda aconteceu... Esse tempo que ela abraçara havia simplesmente parado e ela não podia mais deixar de beijar o instante... Ela abriu os olhos e viu cor... Sentiu o cheiro das flores... Amou coisas simples, lindas e que na maioria das vezes passam tão desapercebidas porque a maioria das pessoas não dá a elas o valor devido... Mas o medo continuava pois ela não podia negar o mundo de aparência cinza que por tanto tempo fez parte dela, ela não podia negar que essa dicotomia, esse vazio faziam parte dela...
O que essa agora mais uma vez menina não sabia é que ela talvez não tivesse visto beleza hoje em coisas simples, se ela não tivesse experimentado como é não ter isso, do lado de dentro, não somente como uma expressão que se olha no espelho...
E então quando ela se permitiu olhar no espelho, se viu com todas as cores possíveis e impossíveis até! Sorriu! Talvez dos dois lados! Me disse uma vez que nunca poderia ter pensado ser tão feliz apenas beijando por um instante o desconhecido, num instante do tempo, mesmo sem fazer sentido agora e mesmo não havendo volta... Daí quando eu parei pra pensar sobre isso: o tempo, a cor, o abraço, o beijo colocados assim, dessa forma, não significavam as palavras que agora são escritas, é como se uma coisa também não pertencesse a outra também... E como eu queria que houvessem signos para que acontecimentos assim pudessem ser eternizados!!!!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Entrelinhe-se!



Nalgum dia, talvez sem querer, talvez por muito querer, você se pega folheando algum livro seguindo o ziguezague de determinadas palavras que o faz parar. Repete o mesmo caminho várias vezes. Um palavrão qualquer coroa o momento em que algo parece ter se (des)engrenado dentro de ti. O assombro de não ter feito sentido algum exatamente por ter feito sentido demais causa borbulhas na boca do estômago e o saltar de veias na testa, alguns chegam até a perder o senso do chão e da verticalidade obrigada pela gravidade. Hesitante, pode preferir jamais ter encontrado semelhantes pensamentos que se infiltram em meio a seu inventário de tarefas cotidianas e surgem sem serem invocadas, neste caso umas boas doses de entretenimento mais do mesmo pode servir para desinfetar as idéias. Ou talvez você se torne um arauto das boas novas distribuindo a seus íntimos suas novas percepções e uma alquimia interna se realiza por meio da coagulação daquilo com seu ser: tornam-se inseparáveis, indistinguíveis.

Alguns terrivelmente incomodados ao sentirem uma sensibilidade possivelmente esquecida tornam-se temerosos diante de sua própria instabilidade e iniciam uma jornada intelectual com a meta de destilar o agente desestabilizador e reificá-lo. Montam nas costas de gigantes do pensamento em busca de seus conceitos taxativos e neutralizadores. Com o esquadro e o compasso em mãos iniciam sua tarefa de sedimentar ao redor do agora objeto um invólucro intelectual, imobilizando-o em meio a uma teia de citações e paráfrases deixando-o esquálido e macilento no alto de alguma torre sem portas ou janelas.

Restabelecidos seguem suas vidas no ramo da alvenaria enquanto esperam pela própria morte em meio a simpósios, artigos, aulas e bancas. Outros abandonam a carreira acadêmica e seguem rumos quaisquer que a vida traz. No entanto intempéries podem vir a acometer tanto uns como outros talvez mais cedo, talvez mais tarde e quem sabe nunca. Um dia você pode ser assaltado por uma situação qualquer na qual se vê confrontado com o grito afiado de um dos muitos encarcerados, conexões escondidas (de ti para si mesmo) pululam na mente desmontando todo o quadro explicativo minuciosamente construído, uma torrente de sensações subterrâneas emerge pelo corpo, o sangue quente corre livre no fluxo de veias antes emboloradas. Uma besta corre livre dentro de ti, a queda é inevitável e as cicatrizes ensinam tanto quanto velhos sábios para os que estão dispostos a ouvir.