domingo, 1 de agosto de 2010

Chapéu

Platelmintos voadores entregavam aperitivos numa praia turística, domesticados.
Não queria encontrar o macaco que ria de mim.
Meu cabelo entra na orelha, meu amigo me chamou de macaquinha da orelha peluda. Será que ele sente a mesma aflição que eu diante de um macaco?
Contornos antigos de cimento emergem do mar,
caminha minha irmã entre estes patrimônios da humanidade,
a frase me vem à cabeça: “o peido traz como arte borrar o cu.”
E percebo que arte não se esquece quando realmente se experiencia.
Ah, não quero apenas peido, quero cu artista borrado de bosta!
Proponho começar peidando com tudo, um cu livre, calcinhas folgadas, e o principal, quando machucar o cu não deixar de peidar com tudo.
Percebo aromas diversos, a cada peido um sabor,
e como seria a explosão de sabores que meu amigo tanto fala?
Fogos de artifício, orgásmico!
E lembro de pratos sofisticados que poderia um dia experimentar...hum
o que comi me vem a memória,
penso no quadro em minha calcinha:
uma noite de feijão e alguns sóis de milho, mas quando olho:
Apenas um cometa que deixou seu rastro.
Ai, fico comovida, também sou artista!


quinta-feira, 29 de julho de 2010



O (Re)encantamento da ciência... A Matemática abstrata, lógica, demasiado humana e incrivelmente bela:!
Abrindo os olhos
Fora do infinito
Perfume de flor!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Tu, minha anta, HH


ALCIR PÉCORA / JOÃO ADOLFO HANSEN
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também" (Luís Bruma).

Enquanto deus diminui, sujeitinho metido no céu de um buraco qualquer do corpo, o gozo aumenta na língua (a Portuguesa). Cães fila ladram do lado de lá, vira-latas latem do lado de cá. Na briga que HH encena contra a obscenidade geral, em Estar sendo, ter sido, o sacrilégio é histriônico, pois não há profanação possível num mundo em que o único sagrado é o troca-troca mercantil. Para que matar deus, se nunca existiu e, morto, só insiste como fantasma, como dizia o outro, porque ainda se acredita na unidade do sexo e da gramática?
HH ri de deus contra o Deus metáfora da Regra. O sujeitinho é paranóico, tem um olho-terror tatuado nas criaturas como cu-caverna das Idéias Essenciais. É dali que tudo é visto e se obra como consciência e limitação. Recusando hipostasias como verdade sublime no rebaixamento ostensivo que evidencia a farsa, a canastrice de HH também recusa a tentação de heroísmo do próprio gesto, amplificando o baixo na sua incontinência verbivocossexual. Enquanto se dissolve, seu riso dissolve o lugar-comum autoritário e a referência a deus aparece ao leitor como a ficção de uma busca impossível. A desmontagem obscena do sórdido lirismo cotidiano, que afeta o sublime, ainda tenta resistir contra o mediano, o bem-pensante, o aparelho, o policial, o seguro de vida já velha ao nascer. Via negativa da ficção de atingir -- o quê? -- o bicho-ninguém, o ganso estropiado, o jeitão da lagartixa, o jeitinho sem frescura de um vira-lata, o nada e o nenhum. Na literatura de HH, o animal e a loucura figuram a utopia de uma vida fora da Lei.
Sua arte repõe a essência do horror, sem catarse e sublimação: a vida brasileira é mesmo obscena e, quanto a Zürich, a limpeza não existe sem a muita merda de cachorro. Joyce, caolho, não deixou de pisá-la. Tragicomédia: nesse mundinho, o baixo que se deseja só baixo é consciência intragável da morte, termo, limite, origem do que se diz: Vittorio sofre, tarado e intelectual, a dor da morte e o horror de Deus; Matias, tarado, planta picas e pitas. Bestalhão o Júnior, um nada. Hermínia, obsessiva, tarada aos 50. E Alessandro, belíssimo e tarado. Mas, limite, e a dentadura?
Dramatizando o vir-a-ser do Alto, ao mesmo tempo HH não quer vê-lo, pois sabe que seria apenas outra ilusão da idiotia generalizada como bruta democracia. O deus que há na praça é esse aí, mentiroso, maneiroso, canelinhas finas, espírito de porco pairando com exclusividade sobre o pântano, síndico do condomínio da morte.
No mundo obsceno, repor o baixo é um pouco como reencontrar o lugar onde o mito da liberdade antes se insinuava. Mas ainda é o mito, não a substância livre, indeterminada. Assim, a consciência utópica, que antes vinha do futuro, agora decai no pretérito, resíduo do gesto baixo: é tendencialmente a consciência da destruição das formas cínicas do presente, mas não tem vez. O hemisfério da destruição reconstrói, como sombra ou névoa amarelo-laranja, não como sol, o rigoroso da consciência.
A perseguição desta faz proliferar a linguagem como falta de ser; ao mesmo tempo, como desejo do fim de Deus. A demanda do nome é demanda do incondicionado: as frases de HH são indícios de acumulação de sujeitos-de-enunciados já lidos, que mantêm a semelhança entre si, como objetos longínquos empapados de uma memória que apodrece; por isso, mais sentidamente, são estranhos, mutilados, vomitivos: sua unidade é aporia e seus resíduos gravados na escrita dão a justa medida de uma arte que só se eleva afundando-se no lixo.
A magnífica HH mais uma vez simula, pois, vozes desejantes de liberação da morte e da vida porca. Como as do gagá Vittorio, apenas anunciam tempo e morte. Aqui, a linguagem que maltrata a carne triste é gozosa e vai do deítico para a amplificatio: aqui, ó, cresce aparece e mostra, o pau. Enquanto o nome do Pai é achincalhado, multiplicam-se as suas imagens: paus murchos brotam, beiçolas yuppies chupam ameaçantes, regos criam dentes, cuzinhos vêm a ser cuzaços, inúteis todos, estéreis de morte, crescendo e multiplicando-se na fábrica sintática em grande algazarra da linguona portuguesa das partes sem pudendum. As imagens misturam-se com diluentes à base de dor, álcool, endotoxinas e muita literatura. As imagens de dois momentos brevíssimos cruzam-se num relance, sugerindo coincidirem na impermanência. O equívoco e a congruência monstruosa são contradefinições cômicas e agudíssimas que produzem o estranhamento contínuo das coisas. Uma galinha ruiva dentro de um cubo de gelo. Deus? uma superfície de gelo ancorada no riso.
A literatura de HH, que no Brasil repõe radicais de Clarice Lispector e Rosa, é pródiga no ensinar desconhecimento, o verdadeiro oposto da ignorância. A obscena Senhora D já rezava pelo Livro de Vittorio: "Livrai-me, Senhor, dos abestados e dos atoleimados". É óbvio, porém, que nada vence a morte e suas formas cotidianas de estupidez. Assim, a consciência é o inferno, mas também, a única poesia possível.
Nela, há um sistema completo, verdadeiro método de estudar e fingir a inconsciência: o álcool, exercício cotidiano de desregramento que faz beber como um macaco raivoso, produz a petrificação que paralisa o tempo e adia a morte numa imagem de desprezo e ironia: delírio trêmulo de não-ser, bengaladas no ar! O sexo, feroz escavação do nada na imagem fingida do outro, funde-se na fala como sexo falante. Sem hedonismo, órgão escarninho da utopia da ausência de Regra, o sexo explora os buracos também do sentido, gozo insípido do significante na busca tonta do gozo máximo do insignificante.
A literatura, essa vaca, é o terceiro vértice deste triângulo. A obscenidade só tem existência num campo de normas e Vittorio pede à rábula ilustrada que se masturbe e ao mesmo tempo finja que lê. Naturalmente, ela lerá o Código Penal. Se a Lei é a Letra, a pena máxima é o castigo mais extremo e o crime, só ocasião da graça. Mas graça não há. Aqui, o abuso obsceno da escrita inverte a escritura do sexo e as perversões transgridem a sexualidade da letra. Vieira sabido de cor, letra gozosa, o manuscrito no corpo. Lei.
Resulta que as penetrações de HH são literalmente utópicas: em vez de cruzar e fincar os corpos, desterritorializam-nos. Os alfabetos da morte se soletram nas manchas da pele, flores do sepulcro, e o fracasso é geral. Enquanto deus desaparece, a única coisa que realmente importa é a dita. Apenas do ponto de vista nenhum do seu nada, do nada além do pânico da anã visguenta, a liberdade é livre e porcaria é harmonia.
Doutores, também quisemos diagnosticar sobre os escritos das personagens-pacientes, desfiados no precipício da hora da morte: mais um caso de teologia negativa, de ascese inversa, de noche oscura, de apóphasis, de delectatio morosa, de muero porque no muero, de não sou eu mas é ele que vive em mim, de adynaton e de petrarquismo às avessas, blá-blá-blá?
Tudo isso, sim, mas nada, agora que deus aumentou tanto que já nem com invertida luneta aristotélica e arte de engenho se alcança ver a ametista utópica incrustada em seu cu de ouro puríssimo.
Revista da USP. São Paulo (36): 140-143, 11/02/1997-98

ALCIR PÉCORA é professor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp e autor de Teatro do Sacramento (Edusp / Edunicamp).
JOÃO ADOLFO HANSEN é professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFCLH-USP e autor de A sátira e o engenho (Companhia das Letras).

http://www.nankin.com.br/imprensa/frm_imprensa_geral.htm

AZIA

domingo, 11 de julho de 2010

CONCEPSICOSE

Se estiver correta a vista, pode-se compreender o papel-hipótese de que a realidade desempenha a explicação de uma instância psíquica (sintomatologia psicótica) e igualmente a fronteira de "fim".
A alucinação seria um "fenômeno do mundo", que Freud aponta como o processo patológico corriqueiro nos paranóicos. A reversão: início das "tentativas de cura". Este quadro vai ser tentado por meio do processo psicótico do delírio, ou seja, do reinvestimento não-narcísico e consistente da demolição das representações da palavra. Revive-se vínculos objetais alucinatoriamente, permitindo o(des)investimento de representações, associações e produções.
Freud já propusera que o processual da fronteira para o normal da consciência depende da célebre reanimação alucinatória das imagens mnêmicas acústicas das palavras:
Hábitos saudáveis refletem no seu dia-a-dia - Bastam 3 acerolas!


*Nenhum dos personagens citados fazem referência a pessoas vivas ou mortas, caso ocorra não passa de mera coincidência acústica.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

primeiro no um

do campado esvaiu-se

era então o todo...