Em determinado momento, a própria filosofia do futuro de Friedrich Nietzsche deixa entrever que sua potência provém de energia, ou melhor, vontade sexual acumulada; acaba, portanto, extravasando numa arenga indignada – ainda que cínica – e enfastiada dos espetáculos ludibriosos de sua cultura. Esse alemão aperreado, que louva a solidão pelo treinamento recrudescedor que essa dá ao espírito, ele mesmo sabe o quanto o eterno-masculino é afeito à ilusão; o quanto é necessitado de imagens substanciais que preencham todo o vácuo do incompreensível. O que Deus e a ciência sempre fizeram pelo homem? Talvez a verdade não tenha uma forma, mas um movimento que envolve, distrai, graceja e, acima de tudo, se esquiva sempre do rufião ocidental de que falo. Por que não nos entregamos de vez a esse seu poder? Por que não tentamos dar mais cor à nossa existência misturando as múltiplas matizes dessa vibração constante? Não parece ser esta também a sugestão de Nietzsche? Mas ao considerar a feminilidade, a castidade involuntária do filósofo sai, descuidada, de seu esconderijo. A mulher, nos seus augúrios para uma nova espiritualidade, é ferreteada por seus atributos idênticos à verdade. Ora, foi tu mesmo que disse, alemão masturbador, que filósofos pouco entendem de verdade, justamente por ela ser como a mulher. E filósofos pedantes pouco sabem o que é uma mulher. Mas você chegou perto. Talvez tenha imaginado bem a natureza feminina, mas ficou ofendido e irritadiço quando ela não se impressionou por sua genialidade; quando ela não cedeu apenas ao seu falatório que apostava na sinceridade. Ouça agora: por quê não levar-se pela dança da realidade, assim como pela dança do feminino? Essa dança – valendo-me de suas palavras – selvagem, encantadora, estranha, mais doce e mais cheia de vida. Você sabe disso. Mas por quê, quando confrontado com a doçura, selvageria, encantamento e jovialidade feminina, você sentencia o cativeiro? Ah, talvez tenha percebido que não pode “vencer” somente com sua magistral filosofia? Então tranquem-na. Façam-na servir-nos. No fim, não era isso que vínhamos fazendo até agora – e que você parecia condenar –, acorrentando a verdade aos conceitos, proibindo-na de sua beleza infinitamente múltipla em favor de nossa ânsia por fundamentação? Toda a força senhoril que você quis imprimir a sua filosofia não passava disso, castidade involuntária. Indignou-se com o fato do homem vacilar pela ilusão da verdade em si e pela ilusão feminina: ao primeiro caso você recomenda a libertação, ao segundo a clausura. De fato, pela moral do seu filosofar, sabemos qual a hierarquia de seus impulsos.
* Tratam-se, essas vozes, de ecos que persistiam em me aborrecer enquanto lia Além do bem e do mal.
Gustavo
O.K.
ResponderExcluirJust a little pin prick
There'll be no more...aaaaAAAAaaaah!
But you might feel a little sick
Can you stand up?
I do belive it's working, good
That'll keep you going, through the show
Come on it's time to go...